Suprimentos de emergência são descarregados no aeroporto de Tribhuvan, em Kathmandu, após as enchentes que atingiram o Nepal. Foto: U.S. Air Force/Senior Airman Cayla Hunt.

Última atualização: 9 de setembro de 2026

A catástrofe que atingiu o Nepal em 26 de agosto de 2026 entrou em uma nova fase. Depois da violência inicial das águas, da lama, das rochas e dos detritos, as comunidades atingidas agora enfrentam uma realidade igualmente difícil: encontrar pessoas desaparecidas, identificar vítimas, restabelecer estradas e pontes, recuperar serviços essenciais e começar a reconstruir regiões profundamente afetadas.

O desastre atingiu principalmente áreas ao longo dos sistemas dos rios Bhote Koshi e Trishuli, incluindo os distritos de Rasuwa, Nuwakot e Dhading, além de outras áreas alcançadas pelo curso das águas. O governo do Nepal afirma que casas, edifícios, estradas, pontes, instalações hidrelétricas e outras estruturas essenciais foram danificados ou destruídos.

Enquanto as primeiras notícias foram dominadas pela dimensão da tragédia, os acontecimentos posteriores mostram que o desastre não terminou quando as águas baixaram. Para milhares de famílias, a emergência continua.

Quantas pessoas foram afetadas pela catástrofe no Nepal?

Os números ainda estão sendo revisados pelas autoridades, porque as equipes continuam localizando vítimas, verificando informações sobre desaparecidos e realizando operações de busca.

No boletim divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do Nepal em 9 de setembro, o governo informou que 1.367 corpos haviam sido recuperados e que aproximadamente 5.100 pessoas continuavam desaparecidas. O mesmo boletim registrou 13.646 pessoas resgatadas, incluindo mais de 300 estrangeiros. Entre os desaparecidos estavam aproximadamente 600 estrangeiros de 35 países.

Uma atualização da Radio Nepal, também publicada em 9 de setembro com dados da autoridade nacional de gestão de desastres, registrou 5.132 pessoas desaparecidas. A mesma atualização informou que 102 corpos já haviam sido identificados e entregues às famílias.

Essa diferença aparentemente pequena entre os números reforça uma questão importante: os dados não devem ser tratados como definitivos enquanto as operações de busca, identificação e verificação continuam.

Por isso, este artigo apresenta os números acompanhados de suas respectivas datas e fontes.

As buscas ainda continuam

Mesmo depois de duas semanas do desastre, as equipes de resgate continuam trabalhando.

O governo do Nepal informou em 9 de setembro que equipes nacionais permaneciam mobilizadas nas áreas afetadas e que grupos especializados de Índia, China e Coreia do Sul continuavam participando das operações em túneis de projetos hidrelétricos. Equipes dos Emirados Árabes Unidos, da Malásia e da Austrália também estavam apoiando os trabalhos.

As buscas em túneis representam uma das partes mais delicadas da operação.

Segundo o governo nepalês, três pessoas haviam sido resgatadas vivas de túneis até 9 de setembro: dois cidadãos nepaleses retirados do túnel do projeto Upper Trishuli 3A em 4 de setembro e um cidadão chinês resgatado do túnel do Upper Trishuli 1 em 5 de setembro.

Esses resgates mantiveram a esperança de encontrar outras pessoas, mas as autoridades também ressaltam que a quantidade de pessoas supostamente desaparecidas dentro dos túneis ainda não foi completamente verificada.

O desafio de identificar as vítimas

Uma das consequências mais dolorosas do desastre é a dificuldade de identificar todos os corpos recuperados.

Em muitos casos, as condições provocadas pela inundação e pela permanência dos corpos em meio à lama e aos detritos tornam a identificação visual difícil. Por isso, o Nepal está utilizando procedimentos forenses e testes de DNA.

O governo informou que corpos recuperados foram temporariamente sepultados depois dos procedimentos forenses necessários, permitindo que o processo de identificação continue posteriormente e que os restos mortais sejam devolvidos às famílias para os ritos funerários.

Equipes forenses da Índia, China, Japão, Singapura e Coreia do Sul passaram a trabalhar junto às autoridades nepalesas para acelerar a coleta e a análise de DNA.

A identificação é particularmente importante porque há estrangeiros entre os desaparecidos. Famílias de diferentes países continuam procurando informações sobre parentes que estavam no Nepal quando a catástrofe aconteceu.

O governo também criou mecanismos para receber informações e perfis de DNA de familiares de pessoas desaparecidas, inclusive daqueles que estão fora do Nepal.

Estradas e pontes destruídas dificultam a ajuda

Um dos maiores problemas da fase pós-desastre é justamente chegar às pessoas que precisam de ajuda.

A força das águas atingiu estradas, pontes e outras estruturas que conectavam comunidades. Com a destruição da infraestrutura, transportar alimentos, medicamentos, combustível e equipamentos se tornou muito mais difícil.

O governo informou que trabalha na recuperação da conectividade rodoviária, elétrica e de telecomunicações nas áreas atingidas.

Um exemplo é a instalação de uma ponte provisória sobre o rio Tadi, na região da estrada Galchhi–Trishuli. Segundo o governo, uma parte da estrutura já havia sido instalada e outras obras estavam em andamento. O Exército nepalês também iniciou a construção de uma ponte suspensa de aproximadamente 250 metros para restabelecer uma ligação importante na região de Trishuli Bazaar.

Essas obras são fundamentais não apenas para a reconstrução, mas para permitir que a ajuda humanitária chegue com mais rapidez às comunidades isoladas.

Drones passaram a ser usados para levar ajuda

Aeronave C-130J chega ao Nepal com ajuda e suprimentos para apoiar as operações de resposta ao desastre. Foto: U.S. Air Force/Senior Airman Cayla Hunt.

Uma das respostas mais interessantes desenvolvidas depois da catástrofe envolve o uso de drones.

Com estradas destruídas e helicópteros ocupados principalmente com operações de busca e resgate, o Exército nepalês começou a utilizar drones para transportar alimentos, medicamentos, combustível e outros itens essenciais para comunidades isoladas.

Segundo a Reuters, quatro drones DJI FlyCart 100, doados pela China, estavam sendo utilizados. Cada equipamento pode transportar até 60 quilos e percorrer cerca de 3 a 4 quilômetros por operação. As equipes estavam realizando aproximadamente 10 a 16 entregas por dia.

Os drones também estão sendo utilizados em outras atividades relacionadas à resposta ao desastre, incluindo reconhecimento das áreas atingidas, apoio às buscas e, em alguns locais, transporte de corpos recuperados.

A tecnologia não substitui estradas, pontes ou helicópteros, mas pode ser uma ferramenta importante quando a geografia montanhosa e a destruição da infraestrutura impedem o acesso convencional.

A saúde pública também virou uma preocupação

O fim da inundação não significa o fim dos riscos à saúde.

Depois de uma grande enchente, comunidades podem ficar sem água potável, saneamento adequado e acesso regular a serviços de saúde. Abrigos temporários e locais de acolhimento também podem reunir muitas pessoas em espaços reduzidos.

A Organização Mundial da Saúde informou em 9 de setembro que o Nepal reforçou a vigilância epidemiológica nas áreas afetadas justamente para identificar rapidamente possíveis doenças e evitar que problemas de saúde se transformem em surtos.

A OMS informou que equipes de saúde estão trabalhando em Nuwakot e Rasuwa, dois dos distritos mais afetados. Mais de 5 mil kits de testes rápidos foram disponibilizados para apoiar a identificação de doenças como dengue, malária, tifo, influenza e leptospirose. Também estão sendo disponibilizados materiais para tratamento da cólera e tratamento da água conforme a necessidade.

Esse trabalho mostra que a recuperação de um desastre não envolve apenas reconstruir casas e estradas. É preciso proteger a saúde das pessoas que sobreviveram.

O impacto sobre casas, energia e infraestrutura

Imagem de satélite registrada após o colapso glacial e a inundação de 26 de agosto de 2026, mostrando a extensão da área atingida. Imagem: European Space Agency (ESA), CC BY 4.0.

A destruição provocada pelo desastre também atingiu estruturas fundamentais para a economia e para o cotidiano da população.

Uma avaliação preliminar divulgada anteriormente pelas autoridades apontou danos a milhares de casas, estradas, pontes e projetos de energia. Como essas avaliações ainda estavam sendo finalizadas, os números devem ser tratados como preliminares.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) estimou, em uma avaliação rápida divulgada em 1º de setembro, aproximadamente 2,2 milhões de toneladas de detritos nas áreas analisadas. O levantamento também registrou que 11 usinas hidrelétricas e uma planta solar, totalizando 431,1 MW, haviam parado de operar, enquanto outros projetos de energia em construção também foram danificados.

A dimensão dos danos energéticos é particularmente importante porque o Nepal depende significativamente da geração hidrelétrica.

Entretanto, é importante não transformar estimativas preliminares em números definitivos. O próprio governo informou em 9 de setembro que a avaliação rápida de danos e necessidades ainda estava sendo finalizada e que uma avaliação mais abrangente estava em andamento.

O Nepal já pensa na reconstrução

Suprimentos de emergência são preparados para distribuição às áreas afetadas pelas enchentes no Nepal. Foto: U.S. Air Force/Senior Airman Cayla Hunt.

Depois da fase emergencial, começa uma etapa que pode durar muito mais tempo: a reconstrução.

O governo nepalês informou que está realizando uma Post Disaster Needs Assessment (PDNA), avaliação destinada a determinar a extensão das perdas e dos danos e os custos necessários para reconstruir as áreas afetadas.

O objetivo é entender não apenas quanto foi destruído, mas também quais serão as necessidades das comunidades durante a recuperação.

Isso envolve questões como:

A Reuters informou que o Nepal está buscando apoio financeiro internacional para a primeira fase da reconstrução e que o governo pretende apresentar suas necessidades a instituições como o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento.

O valor mencionado pelo governo para essa primeira etapa foi de US$ 5 bilhões, mas esse número representa uma necessidade de financiamento apresentada pelas autoridades para a reconstrução e não significa que esse valor já tenha sido recebido ou esteja garantido.

A recuperação será mais longa do que a fase de emergência

Uma das maiores dificuldades depois de um desastre dessa dimensão é que a atenção internacional pode diminuir antes que as comunidades consigam se recuperar.

A destruição de uma casa pode ser visível imediatamente. Porém, a perda de uma fonte de renda, a interrupção da escola, a destruição de uma estrada ou a perda de uma pequena empresa podem produzir consequências durante meses ou anos.

As imagens registradas após as enchentes mostram comunidades cobertas por lama e detritos, casas destruídas e objetos cotidianos abandonados. Reportagens da Reuters destacaram justamente essa mudança de cenário: a água recuou, mas os moradores ficaram diante de um enorme trabalho de reconstrução.

Para muitas famílias, portanto, o desastre não terminou em 26 de agosto. Ele entrou em uma segunda fase.

O que ainda não sabemos

Apesar da quantidade de informações já disponível, algumas questões continuam abertas.

O governo do Nepal afirma que ainda está estudando a causa e a evolução do evento com apoio técnico especializado.

Também não existe ainda um balanço definitivo de todos os danos materiais.

Os números de mortos e desaparecidos continuam sendo atualizados, assim como o número de pessoas afetadas, a quantidade de estruturas destruídas e os custos da reconstrução.

Essa cautela é importante porque, em grandes desastres, informações preliminares podem mudar conforme novas áreas são alcançadas e os registros são conferidos.

Também é necessário cuidado ao falar sobre mudanças climáticas. O desastre aconteceu em uma região vulnerável às transformações ambientais do Himalaia, mas isso não significa que seja cientificamente correto afirmar, sem ressalvas, que as mudanças climáticas foram a causa direta desse evento específico.

O que já pode ser afirmado é que o Nepal está utilizando a catástrofe para chamar atenção internacional para a vulnerabilidade de países montanhosos e para a necessidade de apoio à recuperação e à redução de riscos futuros.

Uma população tentando reconstruir a vida

Enquanto equipes continuam procurando desaparecidos, outras pessoas já enfrentam uma tarefa diferente: tentar voltar a viver.

Há famílias esperando notícias de parentes. Há pessoas que precisam de medicamentos. Há comunidades que precisam recuperar seus caminhos de acesso. Há trabalhadores que ainda aguardam notícias de colegas desaparecidos nos túneis.

E existem também aqueles que sobreviveram, mas perderam casas, objetos pessoais, locais de trabalho e, em alguns casos, familiares.

A recuperação, portanto, não pode ser medida apenas pelo número de estradas reconstruídas.

Ela também envolve o tempo necessário para que as famílias possam encontrar respostas, identificar seus parentes, receber apoio e reconstruir suas vidas.


Perguntas frequentes sobre o pós-desastre no Nepal

Quantas pessoas morreram na catástrofe do Nepal em 2026?

Em 9 de setembro, o governo do Nepal informou que 1.367 corpos haviam sido recuperados. O número continua sujeito a atualização conforme as buscas e identificações avançam.

Quantas pessoas continuam desaparecidas?

O governo informou aproximadamente 5.100 pessoas desaparecidas em 9 de setembro. Uma atualização da Radio Nepal, baseada em dados da autoridade nacional de desastres, registrou 5.132 desaparecidos.

As equipes de resgate ainda estão trabalhando?

Sim. As operações de busca, resgate e recuperação continuam, inclusive em projetos hidrelétricos e túneis. Equipes do Nepal trabalham com especialistas e equipes de outros países.

Como as vítimas estão sendo identificadas?

Além dos procedimentos forenses, as autoridades estão utilizando coleta e análise de DNA. Equipes da Índia, China, Japão, Singapura e Coreia do Sul estão ajudando as autoridades nepalesas nesse processo.

Como a ajuda está chegando às regiões isoladas?

Além dos esforços por terra e por helicópteros, o Nepal passou a utilizar drones para transportar alimentos, medicamentos, combustível e outros materiais para áreas de difícil acesso.

Quando o Nepal poderá concluir a reconstrução?

Ainda não é possível determinar uma data. O governo está realizando avaliações de danos e necessidades para definir a extensão da reconstrução e os recursos necessários.

A catástrofe foi causada pelas mudanças climáticas?

Não é correto afirmar, neste momento, que as mudanças climáticas foram a causa direta e comprovada desse evento específico. As autoridades e pesquisadores continuam estudando as causas e a evolução da catástrofe.


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Conclusão

A catástrofe de 26 de agosto de 2026 deixou o Nepal diante de uma das mais difíceis fases de sua recuperação recente.

Os números mostram apenas uma parte da dimensão da tragédia: mais de mil corpos recuperados, milhares de pessoas ainda desaparecidas e mais de 13 mil resgatadas. Mas, por trás desses números, existem famílias procurando respostas e comunidades tentando reconstruir aquilo que foi destruído.

Ao mesmo tempo, equipes nacionais e internacionais continuam trabalhando nas buscas, inclusive em túneis de projetos hidrelétricos. Drones estão sendo usados para levar ajuda a áreas isoladas, equipes de saúde reforçam a vigilância contra doenças e o governo iniciou avaliações para calcular o tamanho das perdas e os recursos necessários para a reconstrução.

O Nepal ainda está vivendo a emergência. A reconstrução será um processo mais longo.

E, enquanto novas informações surgirem, os números e as avaliações poderão mudar. Por isso, acompanhar fontes oficiais e distinguir fatos confirmados de informações ainda em investigação é fundamental para compreender o que realmente aconteceu e quais serão as consequências para o país.


Por Quézia Silva

Fundadora e responsável editorial do PLURAL ALÉM

Sobre a autora


Fontes consultadas

Radio Nepal
https://radionepalonline.com/en/2026/09/09/435698.html

Organização Mundial da Saúde
https://www.who.int/nepal/news/detail/09-09-2026-strengthening-post-disaster-surveillance-after-nepal-s-flash-floods

Reuters — uso de drones
https://www.reuters.com/world/asia-pacific/nepal-turns-drones-deliver-flood-relief-2026-09-09/

Reuters — consequências e reconstrução
https://www.reuters.com/business/environment/nepal-floods-aftermath-through-lens-reuters-photographers-2026-09-09/

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
https://www.undp.org/asia-pacific/press-releases/nepal-floods-hit-vulnerable-communities-undp-estimates-22-million-tonnes-debris

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